Quem somos
Comunidade para-aparicional de pensamento, arte e ruído.
Oferecemos cursos, conversas e experiências espectrais voltadas à interferência discreta no real.
Coordenadores
Juliana Fausto
Pedro Taam

Em física há quantidades “fixas”, números que acreditamos exprimir certas razões fundamentais da natureza: pi, a constante de Planck, a constante cosmológica etc. Só que as “constantes” não são um dogma. A única coisa que nos assegura que elas não mudam é o acúmulo de observações ao longo dos anos de que, pelo menos até onde vai nossa capacidade de interpretar a radiação de fundo do Universo e de extrapolar a evolução das galáxias e dos relógios atômicos, as constantes são mesmo constantes e nada indica que elas vão mudar.
Dizem que o seguro morreu de velho, mas, se é assim, então eterno ele não é. É por isso que há diversos laboratórios e forças-tarefa pelo mundo afora que, constituídos de redes colaborativas, se dedicam a medir as constantes do universo e a comparar as medições feitas uns pelos outros, para estabelecer qual o melhor valor operacional de dada constante em dado momento e a assegurar que podemos dormir aliviados: elas continuam constantes.
Firmemente imbuídos de sua missão de checar se um mais um ainda é dois, Juliana e Pedro ajustaram seus relógios atômicos, biológicos e de pulso e fizeram uma aparição coordenada, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, para verificar se Notre Dame ainda estava de pé. É que, na falta da concórdia estável do mundo das ciências da natureza, para os humanos a eternidade equivale a duzentos anos, conforme Visconti fez sair, uma vez, da boca de um personagem de filme, o que significaria que uma catedral milenar é como que cinco vezes eterna.
Não há motivos para inquietação, pelo menos por enquanto. Ela continua de pé. O que não nos impedirá de voltar, em algum momento, para checar.
COMPARSAS

Stefany Stettler ajustou seus instrumentos filosóficos, tanatológicos, microbiológicos, imunológicos e cinematográficos para verificar uma suspeita cada vez menos absurda: a de que o mundo moderno talvez já tenha acabado há algum tempo, embora continue andando por aí, em horário comercial, com excelente vocabulário técnico e leve odor de decomposição. Doutoranda em Filosofia pela UnB, mestra em Filosofia pela PUC-SP, especialista em Linguagem Cinematográfica e Audiovisual, Tanatologia, Imunologia e Microbiologia, bacharela e licenciada em Filosofia pela UFPR, Stefany se dedica a estudar a figura do zumbi não como simples resto, mas como imagem de resistência, criação e revanche fabuladora diante do Antropoceno, do capitalismo, do colonialismo, do patriarcado e dos impasses da modernidade. Talvez por rigor metodológico, talvez por sinceridade, define-se como zumbióloga.
Fã de filmes de zumbi, escritora de literatura de horror e autora de Mire na Cabeça: os zumbis do Antropoceno, Stefany pertence à linhagem rara de pesquisadoras que não pedem licença ao monstruoso: conversam com ele, aprendem com ele e, se necessário, correm com ele. Na foto, aparece ao lado de Vitório, seu cão, cúmplice de vigília e testemunha confiável de que, até segunda ordem, nem tudo o que retorna dos mortos perdeu a graça.

Beto Eiras às vezes atende por Boris Karloff, embora isso nunca tenha sido devidamente comprovado por testemunhas confiáveis, prontuários ou autoridades migratórias. Passou pelo Teatro Oficina, sobreviveu à publicidade, experiência que o deixou para sempre desconfiado da luz frontal e das pessoas excessivamente vivas, e hoje vive em exílio na Argentina, onde segue operando na delicada fronteira entre o cinema, a literatura e a assombração técnica. Já estudou cinema, letras, talvez medicina, ou talvez apenas tenha frequentado discretamente os corredores dessas disciplinas como quem recolhe órgãos, frases e negativos para uma criatura futura. Hoje fotografa cinema e fantasmagorias, de preferência quando ninguém está olhando. Leitor, fazedor de imagens e estórias e estudioso informal de saberes humanos e extra-humanos, Beto cultiva a elegância espectral de quem parece ter sido montado com restos de biblioteca, laboratório, cinemateca e neblina.